As infecções do trato urinário (ITUs) constituem um dos diagnósticos infecciosos mais prevalentes na prática clínica ambulatorial, acometendo predominantemente mulheres em idade reprodutiva e idosas. A Escherichia coli uropatogênica (UPEC) é responsável por 70% a 90% dos casos adquiridos na comunidade, sendo dotada de sofisticados fatores de virulência que lhe permitem colonizar, invadir e persistir no trato urinário. Paralelamente, a automedicação com antibióticos configura-se como prática amplamente disseminada no contexto brasileiro, impulsionada por barreiras de acesso ao sistema de saúde, fatores socioeconômicos e lacunas no conhecimento popular sobre o uso racional de medicamentos. Essa prática expõe repetidamente o patógeno a concentrações subterapêuticas de antimicrobianos, favorecendo a seleção e a disseminação de cepas resistentes na comunidade. A resistência antimicrobiana da E. coli às classes de antibióticos rotineiramente empregados no tratamento das ITUs, incluindo betalactâmicos, fluoroquinolonas e sulfonamidas, constitui um problema crescente de saúde pública, associado ao aumento das taxas de falha terapêutica, de recorrência infecciosa, de internações hospitalares e de mortalidade. Os principais mecanismos envolvidos incluem a produção de betalactamases de espectro estendido (ESBLs), mutações nos genes que codificam as topoisomerases-alvo das quinolonas, bombas de efluxo, formação de biofilme e disseminação horizontal de genes de resistência por plasmídeos. O presente estudo consiste em uma revisão narrativa da literatura, conduzida com buscas estruturadas nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO, Google Acadêmico e ScienceDirect, com base em artigos originais e estudos retrospectivos segundo critérios de inclusão e exclusão rigorosamente definidos, publicados entre 2022 e 2026. Os resultados integrados evidenciam que a automedicação com antibióticos contribui de maneira substancial para a emergência e a consolidação da resistência antimicrobiana em cepas de E. coli, comprometendo a eficácia dos esquemas terapêuticos disponíveis para o tratamento das ITUs femininas comunitárias, e reforçam a urgência de estratégias de saúde pública voltadas ao uso racional de antimicrobianos.
Palavras-chave: Infecção do trato urinário; Escherichia coli; Resistência antimicrobiana; Automedicação; Antibióticos.